The prophecy

I don't wanna talkAbout things we've gone throughThough it's hurting meNow it's history
I've played all my cardsAnd that's what you've done tooNothing more to sayNo more ace to play
The winner takes it allThe loser's standing smallBeside the victoryThat's her destiny

1995

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. 
Eu sou.

(Com licença poética)
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1995

Tropecei


É impossível andar direito
Numa calçada cheia de pedras soltas
Você também não dobra bem os seus joelhos
Nem sobe muito os seus pés 

O que você esperava que acontecesse
Com alguém que anda se arrastando
Você achou que alguém pavimentaria 
O caminho só para você 

Não pavimentaram
Nem fizeram nada pra te ajudar
No fim você tem que aprender a dobrar mais seus joelhos 
Subir mais a ponta dos pés 

Eu refaço meu passos
Cada pulo que dei
Procurando violentamente em qual foi que 
Tropecei