domingo, 23 de setembro de 2012

Carta 2 - R.

 Minha mãe sempre me falou de cartas que ela mandava aos amigos quando estava de férias. Que as enviava quando sentia saudades das primas de lá longe e era assim que se comunicavam. Mas todas as cartas de minha mãe eram endereçadas à pessoas que ela realmente gostava.
    Como posso escrever algo pra você?
Hipocrisia de minha parte dizer isso. Já que muitas coisas que escrevi e escrevo são destinadas a ti. E não orgulhosamente, vim dizer.
    Te conheci com 13 anos. Minha vida tão pequena, tão sensível e você já era todo grande, todo esperto, já sabia o que fazia e aonde poderia chegar. Você me manipulou por mais ou menos dois anos, não é? oito do oito do oito, não era a grande data? É a única da qual me lembro associando você. Antes eu era... tão feliz. Tão mentirosa. Tão astuta. Eu era menina. Me-ni-na. Daquelas que brincavam na rua com os meninos, não sabia o que era ser menina direito, eu era feliz. Daí, você associou minha vida a um livro americano de ilusões e me apunhalou pelas costas na primeira oportunidade que teve.
    Mas não te odeio. Muito pelo contrário. Só tenho a agradecer. Mas não vou gastar meus "obrigada" com você. Não mais.
    Eu não queria me estender muito, tudo o que eu tinha pra te falar, já ta falei, na cara a cara. Só queria que você soubesse que você N-Ã-O me decifrou. HAHA vai sonhando!
    Quem você achou que era pra dizer que: "Eu fui a única pessoa que te decifrou."? Cara, você nem ao menos chegou na metade do caminho. Você me iludiu, mas eu te iludi duas vezes mais. Da última vez que te encontrei, disse pra você não se sentir muito por fazer parte da construção do Gabriel. Já disse que você foi a quinta parte, a cereja do sundae, o ponto final.
     É, você foi o ponto.
     O ponto final.
     De "Fim"!

Cegueira


    Pois sim. Acho até estranho essas coisas de passado, presente e futuro. Há muito tempo, sei que não vejo mais as coisas com as via antes. Sei que "acordei" pra muitas coisas que nunca imaginaria e que deixei outras irem embora. Mas, certos assuntos são sempre levados em consideração e eu aprendi a lidar com eles da pior maneira possível, até porque mentiras são e serão sempre mentiras. Não importa o meu esforço para torná-las realidade. 
Eu passei um bom tempo de minha vida, acreditando em pessoas que não deveria acreditar, olhando só para um lado, que nem percebi o que acontecia ao meu redor. E hoje, anos depois, tudo veio à tona. E você se vê assim, lenta, estúpida, sempre na estrada errada.
  Mas... eu ri. Ri por dentro, por fora, por todos os lados. Pedi... Pedi obrigada a quase todos os "Deus" que eu conheço e fiquei chocada. Convenhamos.
  É sempre um privilégio e um alívio acertar as coisas quando se tem certeza de que vai errar. E quando você começa algo num passado distante, não se dá conta disso, se envolve erradamente e depois, por destino, sei lá, acorda e vê tudo o que construiu sem ao menos cogitar a possibilidade. 
Pois é, eu estava era muito cega mesmo.

JRS