domingo, 26 de agosto de 2012

Encontro

Fazia quase uma década que eles não se viam. Suas vidas haviam mudado completamente, tudo estava diferente. A vida os havia separado e quebrado o laço entre eles.
Ela já era famosa. Tudo o que sempre quis, ser reconhecida pelo o que mais gostava de fazer. Ele não ficava pra trás, era consideravelmente rico sem ninguém o abordar na rua.
Ela acabara de jantar em seu restaurante favorito, sozinha. Havia acabado de se levantar, o dinheiro da conta e a gorjeta do garçom já tinham sido pagos. Caminhou em direção a porta e sorriu ao porteiro. Ela viu bem de relance o manobrista trazer seu carro, pensou em abrir o guarda-chuva e sair debaixo do toldo verde, mas percebeu que o tinha esquecido em casa. Olhou novamente para seu carro e percebeu que o mesmo estava sendo roubado, dois homens em uma moto apontaram seus revólveres para a cabeça do manobrista e ele foi obrigado a sair. O carona pulou da moto e entrou no carro, saiu em disparada em companhia da moto
Ela mal teve tempo de pensar em se mexer, meia dúzia de seguranças saiam sei-lá-de-onde e entravam em carros pretos, que sumiam segundos depois. Ele não teve vontade de fazer mais nada a não ser descer os últimos três degraus que lhe separavam da chuva que de repente havia aumentado. Esperou ali mesmo por um táxi.
- Essas coisas só acontecem em dias de chuva. - reclamou.

Ele não podia acreditar. Era ela. Em carne e osso. As fotos dos jornais não a mostravam por inteiro. Ela não cresceu nada, continuava a mesma anã de sempre. Parada, na chuva, parecia estar mais vulnerável do que o normal.
O coração dele pedia pra chegar mais perto, só pra gravar cada detalhe dela. E com a chuva ficava impossível fazer isso de longe.
Ele fez o contorno para o restaurante e parou. Ele não podia deixar ela na chuva, do jeito que ela era pegaria um resfriado, ou uma pneumonia. Ao mesmo tempo, ele não queria que ela entrasse no carro, que ficasse tão perto dele.
Acelerou o carro e parou ao lado dela, viu seus olhos cintilarem em contraste com os faróis. Aqueles olhos... Abriu a janela do carona e falou:
- Entra.
Ela estava prestes a recusar gentilmente, a última coisa que ela queria era entrar no carro com um fã maluco. Abaixou-se para agradecer e quase caiu pra trás.
- Nã... não precisa. Eu vou pegar um táxi.
- Nessa chuva? Duvido muito - Ele tinha razão, é claro. Nenhum táxi  passaria ali, ou a veria. E além do mais, ela estava morrendo de vontade de entrar. E ela já tinha perdido a luta mesmo, logo quando ela percebeu o sorriso dele ao ouvi-la gaguejar.
Ele destrancou a porta e a abriu. Ela entrou e sem virar pra olhar pra ele, disse:
- Obrigada.
- Vou te levar pra casa. - Ele disse, dirigindo com uma só mão.
Ela o olhou de cima a baixo. Continuava lindo, talvez um pouco mais presunçoso. Tinha crescido, de todas as maneiras. Sua presença ali era maior que tudo.
- Como você está? - A pergunta certa era "Como tem passado?"
- Ótima. - respondeu ela.
- Que bom.
- E você?
- Bem.
- Fico feliz. - Ela disse, de modo vago.
- Muito bonito.
- O quê?
- O modo como você não se importa.
- Ah.
- Quem diria hein? Fa-mo-sa.
- E você? Até já sabe mandar piadinhas de mau gosto. - Ela disse de cara amarrada.

Dez anos haviam se passado. Mas ele não perdeu o jeito de irrita-la. Ela não conseguia NÃO se zangar. Os dois ainda brigavam como dois adolescentes e mesmo assim, quando estavam juntos, não paravam de sentir aquelas pequenas faíscas quando seus cotovelos se tocavam e aquelas mesmas borboletas no estômago.

domingo, 19 de agosto de 2012

Carta 1 - P.


Pedro,
     Eu ainda me lembro do dia que a gente se conheceu. Tá bom, é mentira, eu não me lembro. É que já faz muito tempo e eu tenho uma memória péssima. Mas eu me lembro de você, com todos os seus atrativos pessoais que te fazia ser tão cobiçado. Éramos tão amigos, tão próximos... O que houve? Você desistiu de uma maneira tão fácil, nem ao menos me disse nada. Foi embora da minha vida e nem deixou um número de telefone, qualquer coisa que eu pudesse me agarrar. Só vejo paredes, lisas, e isso é bem triste.
Não queria ter que dizer isso, mas eu te avisei. Umas milhares de vezes que você iria se machucar ficando com ela, que aliás, nós nos machucaríamos. E como sempre, eu tinha razão. Mas eu não esperava que você ficasse com raiva de mim. Na verdade, minto de novo. Eu fiz a sua raiva acontecer.
      Sei que ficou com raiva quando eu não me importei como deveria ter me importado. Eu também fiquei com ódio de mim, mas eu sempre fui assim, de não pensar nas coisas na hora, deixar pra depois, sou sempre atrasada, você devia saber...
Agora, o que eu faço? Fico satisfeita com a sua resposta de cinco palavras que manda de ano em ano? Fico feliz em saber que você ainda esta vivo em algum lugar desse Brasil, esperando que nada mais aconteça com você, se remoendo aí dentro, fingindo que nada está acontecendo, ou que nada aconteceu?
      Eu sempre amei você. Do jeito "Julia", sabe? Amar, ter medo, odiar, não saber... mas sempre te quis bem, por isso tudo aquilo, por isso a implicância, por isso o jeito que tudo aconteceu, sempre quis te ver com quem te merecia e você sabe quem te merece, não ficou com ela por culpa minha, que te apresentei a errada. Eu peço desculpas até hoje, mas já aconteceu. Acho que foi até melhor pra ela, né?
      Se você vai me responder, ou não, fica por sua conta. Só nunca esqueça, que eu nunca vou te esquecer. 



                            "Quando eu te disse acima que admiro muitas coisas em você, não menti. Eu adoro teu jeito irônico, teu jeito maluco, teu jeito cínico, teu jeito malvado, teu jeito "curta e grossa" e meias palavras, contando com bons entendedores. E talvez o erro tenha sido meu, por não entender algumas coisas, talvez as qualidades que falei agora, soem pra outros como defeitos e é o que mais admiro em mim, e eu me amo por ter isso em mim. Não que eu tenha aprendido com você, mas foi você que me fez enxergar o lado "positivo" disso. Eu ficava muito feliz quando entre nós rolava uma conversa que só terminava, quando um tinha que ir embora. Você pode perguntar a qualquer pessoa desse mundo, eu nunca falei mal de você, sempre te defendi. Briguei várias vezes com a Sophie, com a Raíssa, pela simples afeição que tenho por você. Você foi uma das primeiras pessoas que eu conheci aqui, uma das primeiras que eu amei, e eu sempre vou gostar muito de você. Ainda quero escutar seu nome por aí. Eu me importei muito com você, me importo até. Eu gosto muito de você e vou levar tudo de positivo que trouxe pra mim. É a velha frase: "Nunca se arrependa do que te fez rir um dia" e NUNCA vou me arrepender de tudo que vivi e fiz com você."

Café


Isso é tão a gente.
Ser pequeno e grande ao mesmo tempo.
Poder ser frio e quente.
Ser tudo e nada, mas sempre preferir outra coisa.
É como o café: Amargo ou doce.
Depende de quem toma.
Depende do dia.
Do clima.
Do gosto.
Do acompanhamento.

Café.