sexta-feira, 15 de junho de 2012

P-e-r-d-i-d-a

A garota caminhava, em seu costumeiro abraço contra o peito, a fim de que todos os seus sentimentos não transbordassem sem seu devido ajuste.
O garoto a seguia, já a seguia há bastante tempo, mais tempo do que ela merecia aliás. E a enxergava de outra forma, não só como a “garota fria” como todos a conheciam, ele sabia que aquele abraço contra o peito significava alguma coisa.
    Ele continuou o caminho com ela. Ela o olhou de lado e não fez nenhuma pergunta, não falou absolutamente nada, só parou abruptamente.
    — Tome. Você deixou cair. - Ele estendeu a mão para ela.
   — O quê é isso? - Ela perguntou, sem estender as mãos cruzadas em seu peito.
   — Você sabe o que é. É seu. 
   Ela o olhou novamente, agora no fundo dos olhos, procurando algo para se decepcionar, como sempre fazia quando alguém chegava perto demais.
   — Não posso pegar. - Ela finalmente balbuciou as palavras desencontradas.
   — Não há o porquê temer. É seu.
   — A muito tempo não posso ter isso em minhas mãos de novo. - Ela estendeu as mãos pra ele, e ele as olhou. As duas mãos eram perfeitas, com seus cinco dedos e unhas. Mas no centro da palma, um buraco pequeno fazia jus a sua estranheza.
   — Tens buracos nas mãos? - Ele perguntou, assustado.
Ela suspirou e respondeu quase em prantos: — Há muito tempo tentei pegar algo que não deveria ser meu, eu o amava tanto, tanto… mas ele era mau; Não me quis, mas não pôde me deixar, então me transformou nesse ser ser sentimentos, e me arrancou da palma das mãos, o que eu mais tinha de belo.
     Ela olhou pra mão dele. O garoto seguiu seu olhar e viu que o quê ele mesmo segurava, era o coração da menina, adormecido, quieto, quase que sem vida. Ao olhar a menina novamente, ela já não estava mais com os braços ao redor de seu peito, e sendo assim, pôde enxergar um outro buraco que escondia. Na altura de seu peito, ao lado esquerdo. 
    O garoto pôs-se a colocar o pequeno coração naquele buraco e num segundo ele criou vida novamente.
   — Obrigada. - Disse a garota. - Em tempo, você foi o único aqui com coragem e bondade o bastante para me ajudar e não temer à mim. 
   — Seja feliz, agora, que és inteira de novo. - O garoto disse.
E assim, os dois se sorriram. E tomaram rumos diferentes…

é bom ver você de novo.



s-i-o-d

Não adianta nada pensarem que com todo o desenvolvimento dessa tragédia, eu ficaria mal. Vou contar pra vocês, o que já havia contado antes. Eu não sou de sofrer, mesmo.
Então, Gabriel pode se casar, quantas vezes ele quiser, mas eu me nego a sentir qualquer coisa em relação a isso. E o pior de estar falando que eu vou me negar a sentir, é saber que eu nem preciso chegar a tanto.
Eu levantei da cama, querendo me lembrar como eu tinha conseguido dormir na noite anterior, aí eu me lembrei que nada atrapalha o meu soninho e fiquei bem. Fui tomar banho e colocar uma roupa confortável, eu dormi de calça jeans e minhas pernas estavam se sentindo mal.
Desci pra comer alguma coisa e falar “bom dia” pra minha mãe, mas não encontrei ninguém. Provavelmente, a essa hora, todo mundo devia estar trabalhando. Então, eu fiquei sozinha com meus pensamentos e com a Melzinha, que não parava de falar. Eu não a escutei, mas tinha de admitir que aquela garota tem uma mente perversa.
    - Uma mente dentro de uma mente. - Pensei. - Que estranho.
Quando me dei por conta de que estava falando sozinha e que provavelmente isso se dava ao fato de que eu estava ficando maluca, resolvi fazer algo que presta, e que me acalma. Desenhar.
Não consegui desenhar nada. A minha inspiração não chegou. Não consigo desenhar com meus pensamentos desordenados desse jeito. - e com o coração despedaçado também. - Alguém dentro de minha mente acrescentou.
Eu ri.
Entenda, quando desenho algo realmente lindo, é de se suspeitar que tive um ponto de inspiração. Talvez alguma situação que me fez desenhar aquilo, algum pensamento que me veio a mente, um Dejávù. Qualquer coisa que me prendesse a atenção por mais de cinco segundos. Mas nada me prendia a atenção, minha mente não sossegava, eu estava as cegas e isso era ruim, era desse jeito que eu me desprendia de meus vínculos e as memórias de meu passado me perseguiam.
Meu celular começou a tocar. Suspirei.
    - Alô.
    - Melína? - Gabriel disse, meio rouco.
    - Quê é?
    - Tá em casa?
    - Aham.
    - Eu queria te pedir um favor.
    - Que favor?
    - Queria que você desenhasse um vestido pra mim.
Parei. Essa era a coisa mais estranha que o Gabriel já falou desde que eu o conheço. E olha que eu conheço ele há muito tempo e ele já falou coisas bem estranhas.
    - Você virou gay? - Eu meio que sussurrei.
Ele demorou um pouco pra responder e quando finalmente o fez:
    - Não um vestido pra mim Melína, um vestido de noiva, pra minha noiva.
Nota número 1: Eu preferia mil vezes que ele tivesse virado gay.
Nota número 2: Era assim que ele pretendia me contar sobre o casamento?
Sabe, eu não demorei nem dois segundos pra responder ele. Eu não sei se vocês já perceberam isso, mas em nossa mente não existe tempo. Você demora dois segundos na vida real, mas na sua mente, analisa minuciosamente todos os detalhes. Assim como na vida real, pode-se demorar anos, mas na sua mente, só durou dois segundos. Nesses dois segundos que eu demorei pra respondê-lo, eu pensei: Quê diabos essa mulher queria comigo? Ela não gosta de mim. Eu não gosto dela. Eu tenho certeza que ela preferiria casar vestida de vaqueira do que com algo que eu criei... então, o quê será que tá acontecendo aqui?
Eu me conheço bem o bastante pra saber o que eu respondi.
- Tá, eu faço. Mas eu tenho que conversar com ela. Ela que decide como ela vai querer.

sábado, 2 de junho de 2012

"La piel que habito."

"Esquecer..." Ele disse. Como seu eu pudesse. Não sou como ele, não vou me esquecer, não sou feita de ilusões, sei o que sinto, sinto o que sei. Não dá pra negar mais nada.
Como vou esquecer, só queria poder esquecer, mas não posso... E como vou negar agora? Quando todos já haviam visto, já sabiam de tudo, já sabiam o que eu sentia e o que eu queria, como vou negar algo que não pode ser negado, se a verdade pudesse ser vista concretamente, seria assim, meu Deus, como vou esquecer? Como vou negar? 

E ele se esqueceu do mais importante também, eu nem estou mais pedindo por mim, será que ele volta? Ele tem que voltar, mas uma vez... eu não estou pedindo por mim, nós dois sabemos que há uma pessoa mais importante do que nossas próprias vidas aqui... Ele não abriu a porta, eu ainda continuo esperando e ela também... ele se esqueceu?


Ele não esqueceu... como ele poderia? Depois de prometer amá-la pra sempre. A verdade é que, ele não vai mais voltar. E nós? Nós sentiremos saudades e seremos sempre dele.




JRS